Então introduziu um novo horário de trabalho: na
segunda podiam chegar uma hora mais tarde – a taxa de
acidente reduziu-se drasticamente.
Havia um grande refeitório e sempre muito limpo. Os
empregados almoçavam refeição preparada sob um
cardápio elaborado por nutricionistas (já na
década de 60!) e pagavam o equivalente a centavos de
cruzeiro, que era descontado do salário – hoje
são os tickets refeição. Ele também
almoçava lá. Não havia separação
entre empregados e a Diretoria.
Mas ele reparou que os empregados ficavam muito anciosos pela
chegada do horário do almoço e quando a sirene
tocava, saiam correndo para o refeitório. Alguma coisa
não estava certa! Acabou descobrindo que a
maioria saía de casa sem tomar o café da
manhã! Então introduziu o “café da
manhã”. Os empregados chegavam 10 minutos mais cedo e
recebiam, livre de custos, um belo copo de café com leite e
um pão com bastante manteiga. Acabou a correria para o
refeitório na hora do almoço e todos trabalhavam bem
mais animados no período da manhã. Obviamente
também diminuiu mais ainda a taxa de acidentes.
Na linha de produção mais leve, principalmete
polimento e montagem de fechaduras, ele empregava cegos, surdos e
mudos, cadeirantes – eles eram mais dedicados. E mulheres que
tinham mãos mais delicadas e não quebravam as
peças menores.
Mas estas mulheres também eram mães. Então
montou-se uma creche, ali mesmo dentro da Fábrica. Todas as
mães podiam, a cada duas horas, ver e amamentar
seus bebês. Era um espaço muito aconchegante e os
bebês cuidados por enfermeiras e assistentes de
neo-pediatria. Ninguém ficava ansioso, nem a mãe nem
o bebê.
Os empregados, às vezes, ficavam doentes. As filas do
Serviço Médico do Sindicato dos Metalúrgicos e
do IAPI eram piores do que as atuais filas do INSS. Um
serviço médico dentro da Fábrica ficava bem
mais barato e o empregado não faltava ao serviço. O
plantão de 24 horas era coberto por enfermeiros/as
diplomados e todos os dias médicos, a cada dia uma
especialidade, atendiam os empregados com hora marcada, para
que não precisassem abandonar seu posto de
trabalho para enfrentar filas. Alguns tinham problemas
dentários: meu pai montou um gabinete dentário e
colocou o primo dele, Dr. Arne Koblinski, um bom dentista, para
atendimento dentário. Era tão bom o serviço
que até eu fazia meu tratamento lá.
Se o empregado tinha algum problema familiar ou emocional era
atendido pela Assitente Social ou pelo Psicólogo, que
estavam todos os dias trabalhando junto ao Departamento Pessoal. Se
tinha problemas financeiros podia pedir um adiantamento sobre o
salário. E tinha um empréstimo a longo prazo para
construção de casa própria.
Como não haviam ainda os tickets alimentação
foi montada uma cooperativa onde os empregados compravam alimentos
e roupas e o valor era descontado da folha de pagamento. Mas estes
alimentos e roupas eram repassados a preço de atacado. A
Cooperativa não visava lucro!
Muitos empregados moravam longe: dois ônibus da
Fábrica iam buscá-los.
No Jaçanã não existiam jardins de
infância. Ele construiu um nos fundos da Fábrica com
muitos aparelhos de recreação para os filhos dos
empregados. Eu adorava ir lá. Já tinha
oito ou nove anos mas parecia que o Jardim havia sido
construído para mim! E tinha um nome parecido com
o meu: Martha Löwentein, que era minha
bizavó. Claro que os pais das crianças também
podiam brincar! Um belo campo de futebol e outros atrativos para
adultos estavam à disposição deles fora do
horário do expediente.
Uma Lei nova instituiu as CIPAs - Comissão Interna de
Prevenção de Acidentes, no Brasil. A da
Aliança foi uma das primeiras a ser instituída e meu
pai participava da maioria das reuniões. Muitas boas
idéias surgiram destas reuniões, e o empregado que as
tinha sugerido, se elas se mostrassem exeqüíveis,
ganhava prêmios, que podiam ser até em
dinheiro! Adotou-se o uso dos turbantes para todas as
mulheres, seus cabelos não encostavam nas máquinas e
não sujavam!
O SENAI estava sendo montado, não tinha ainda oficinas para
treinar os alunos. Meu pai ofereceu a oficina de ferramentaria para
que dessem aulas à noite quando as máquinas ficavam
ociosas. Foi uma das primeiras oficinas do SENAI no Brasil.
Um aluno muito esperto e inteligente, que meu pai elogiava muito,
tomava duas conduções para chegar à
Fábrica. Quase não perdia aula. Nos ônibus de
São Bernardo até o Jaçanã ele
aproveitava para estudar, ou dormir, quando estava muito cansado.
Numa noite um dos seus colegas cochilou sobre uma das
máquinas e ele se acidentou. Perdeu o dedo mindinho num dos
tornos. Meu pai cuidou para que ele tivesse a melhor
assistência. Ele se formou como ferramenteiro e foi trabalhar
em São Bernardo. Lá percebeu que nenhuma
fábrica tinha o que ele havia visto na Aliança.
Alguns anos mais tarde este menino virou lider sindical e
“bagunçou” a vida do Brasil. Tanto fez que
chegou à Presidência deste país.
O nome dele? Luis Inácio da Silva, que ainda
não era Lula!
*
Marta é poeta, fotógrafa e
orquidófila