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Catherine Henry - My Blog
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Falando sobre o Dr. Walter Loewenstein - Meu pai

Por Marta Loewenstein*
Ele tinha o maior orgulho de tudo que havia construído e conquistado na Aliança Metalúrgica (que ele chamava simplesmente a Fábrica). Estas conquistas conseguidas a duras penas eram batalhas diárias com seu pai, Max Loewenstein, que, sempre que podia, restringia as verbas para os melhoramentos que queria introduzir na Fábrica. Mas ele conseguia convencer o pai. Tinha sempre bons argumentos e sabia como tocar o “orgulho” do pai. Em 1960 a Fábrica era a quinta melhor do Brasil na área de metalúrgicas.
Meu pai era um excepcional observador de pessoas. Percebeu que os empregados, na segunda-feira, chegavam cansados e aconteciam muitos acidentes, principalmente se o Corinthians ganhasse o jogo do domingo:  era o efeito comemoração.
Então introduziu um novo horário de trabalho: na segunda podiam chegar uma hora mais tarde – a taxa de acidente reduziu-se drasticamente.

Havia um grande refeitório e sempre muito limpo. Os empregados almoçavam refeição preparada sob um cardápio elaborado por nutricionistas (já na década de 60!) e pagavam o equivalente a centavos de cruzeiro, que era descontado do salário – hoje são os tickets refeição. Ele também almoçava lá. Não havia separação entre empregados e a Diretoria.

Mas ele reparou que os empregados ficavam muito anciosos pela chegada do horário do almoço e quando a sirene tocava, saiam correndo para o refeitório. Alguma coisa não estava certa!  Acabou descobrindo que a maioria saía de casa sem tomar o café da manhã! Então introduziu o “café da manhã”. Os empregados chegavam 10 minutos mais cedo e recebiam, livre de custos, um belo copo de café com leite e um pão com bastante manteiga. Acabou a correria para o refeitório na hora do almoço e todos trabalhavam bem mais animados no período da manhã. Obviamente também diminuiu mais ainda a taxa de acidentes.

Na linha de produção mais leve, principalmete polimento e montagem de fechaduras, ele empregava cegos, surdos e mudos, cadeirantes – eles eram mais dedicados. E mulheres que tinham mãos mais delicadas e não quebravam as peças menores.

Mas estas mulheres também eram mães. Então montou-se uma creche, ali mesmo dentro da Fábrica. Todas as mães podiam, a cada duas horas,  ver e amamentar seus bebês. Era um espaço muito aconchegante e os bebês cuidados por enfermeiras e assistentes de neo-pediatria. Ninguém ficava ansioso, nem a mãe nem o bebê.

Os empregados, às vezes, ficavam doentes. As filas do Serviço Médico do Sindicato dos Metalúrgicos e do IAPI eram piores do que as atuais filas do INSS. Um serviço médico dentro da Fábrica ficava bem mais barato e o empregado não faltava ao serviço. O plantão de 24 horas era coberto por enfermeiros/as diplomados e todos os dias médicos, a cada dia uma especialidade, atendiam os empregados com hora marcada, para que não precisassem  abandonar seu posto de trabalho para enfrentar filas. Alguns tinham problemas dentários: meu pai montou um gabinete dentário e colocou o primo dele, Dr. Arne Koblinski, um bom dentista, para atendimento dentário. Era tão bom o serviço que até eu fazia meu tratamento lá.

Se o empregado tinha algum problema familiar ou emocional era atendido pela Assitente Social ou pelo Psicólogo, que estavam todos os dias trabalhando junto ao Departamento Pessoal. Se tinha problemas financeiros podia pedir um adiantamento sobre o salário. E tinha um empréstimo a longo prazo para construção de casa própria.

Como não haviam ainda os tickets alimentação foi montada uma cooperativa onde os empregados compravam alimentos e roupas e o valor era descontado da folha de pagamento. Mas estes alimentos e roupas eram repassados a preço de atacado. A Cooperativa não visava lucro!

Muitos empregados moravam longe: dois ônibus da Fábrica iam buscá-los.

No Jaçanã não existiam jardins de infância. Ele construiu um nos fundos da Fábrica com muitos aparelhos de recreação para os filhos dos empregados.  Eu adorava ir lá. Já tinha oito ou nove anos mas parecia que o Jardim havia sido construído para mim! E tinha um nome parecido com o  meu: Martha Löwentein, que era minha bizavó. Claro que os pais das crianças também podiam brincar! Um belo campo de futebol e outros atrativos para adultos estavam à disposição deles fora do horário do expediente.

Uma Lei nova instituiu as CIPAs - Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, no Brasil. A da Aliança foi uma das primeiras a ser instituída e meu pai participava da maioria das reuniões. Muitas boas idéias surgiram destas reuniões, e o empregado que as tinha sugerido, se elas se mostrassem exeqüíveis, ganhava prêmios, que podiam ser até em dinheiro!  Adotou-se o uso dos turbantes para todas as mulheres, seus cabelos não encostavam nas máquinas e não sujavam!

O SENAI estava sendo montado, não tinha ainda oficinas para treinar os alunos. Meu pai ofereceu a oficina de ferramentaria para que dessem aulas à noite quando as máquinas ficavam ociosas. Foi uma das primeiras oficinas do SENAI no Brasil.

Um aluno muito esperto e inteligente, que meu pai elogiava muito, tomava duas conduções para chegar à Fábrica. Quase não perdia aula. Nos ônibus de São Bernardo até o Jaçanã ele aproveitava para estudar, ou dormir, quando estava muito cansado. Numa noite um dos seus colegas cochilou sobre uma das máquinas e ele se acidentou. Perdeu o dedo mindinho num dos tornos. Meu pai cuidou para que ele tivesse a melhor assistência. Ele se formou como ferramenteiro e foi trabalhar em São Bernardo. Lá percebeu que nenhuma fábrica tinha o que ele havia visto na Aliança.

Alguns anos mais tarde este menino virou lider sindical e “bagunçou” a vida do Brasil. Tanto fez que chegou à Presidência deste país.

O nome dele?  Luis Inácio da Silva, que ainda não era Lula!

* Marta é poeta, fotógrafa e orquidófila


August 16, 2008 | 2:08 AM Comments  0 comments

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