Escrito por Brasileira
Insone em seu blog: Republico o texto
da minha colega de orkut aqui porque o que está acontecendo
do ponto de vista da Liberdade de Expressão no Brasil
é muito grave. Está na hora de tomarmos a
única atitude que podemos tomar. Falar sobre o assunto. Leia
por favor.
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Estes
últimos dias foram intensos. Tenho tanta coisa a dizer que
às vezes parece que estão saindo letrinhas pelos
orifícios da minha cabeça.
Eu entendo que
muitos estejam fazendo pouco caso do que está
acontecendo.
Uma parte
destas pessoas se esquece de que este não é um
problema que deve preocupar apenas usuários do Orkut.
Trata-se de um
precedente que coíbe a manifestação
política, a publicidade espontânea do voto de cada um
e o debate em busca de outros.
Não
importa o ambiente, se é aquele que a gente usa ou
não. Importa combater o que está errado mesmo que,
num primeiro momento, isso não esteja nos atingindo.
Mas a maior
parte talvez não esteja se importando muito porque julga que
o Orkut é uma coisa para adolescentes e crianças.
Enganam-se. O Orkut é uma ferramenta – nada mais que
uma ferramenta – como outra qualquer, como um lápis,
como um carro.
Um
lápis pode ser usado por uma criança para fazer
desenhos, mas também pode servir para um grande homem
escrever sua obra-prima e ganhar o Prêmio Nobel. E o mesmo
lápis pode servir para o chefe de uma quadrilha enviar um
recado aos seus comparsas. Igualmente, um carro pode servir tanto
para dar um passeio, como para levar alguém ao hospital ou
para assaltar um banco. Tudo depende do uso que se dá.
Em especial, o
Orkut é uma ferramenta que propicia 1) o reencontro de
pessoas que não se viam há muito tempo; 2) a
aproximação de pessoas que têm pensamentos ou
interesses afins; e 3) o debate franco sobre qualquer assunto, com
todas as vantagens e desvantagens que isso tem.
Por isso,
creio que é hora de fazer alarido público e junto
à imprensa, sim. O fato de interferirem, da forma como
estão interferindo, no Orkut é coisa grave, e deve
despertar a atenção dos defensores da democracia e da
liberdade de expressão. Essa determinação do
TSE simplesmente nos deixou sem ação na internet,
como cidadãos. É um descalabro que a justiça
impeça que os cidadãos declarem publicamente seus
votos (como muitos faziam no seu avatar) em um ambiente privado
(sim, o Orkut, embora virtual, é um ambiente privado –
já volto a falar sobre isso). É como se entrassem no
nosso quintal e dissessem: "não, vocês não
podem usar bottons do candidato de vocês, nem balançar
bandeiras etc".
Estas coisas
costumam funcionar como dominó (se não pode isso,
também não pode aquilo; se não pode aquilo,
aquele outro também não etc.), como já
estão funcionando: hoje à tarde foram apagados mais
perfis de nossos amigos, incluindo um em homenagem ao Mário
Covas, sem banner nem nada – que, me digam, o que tem a ver
com o peixe da eleição deste ano?
Segundo o que
estamos vendo acontecer, perfis que simplesmente tenham banner do
candidato e/ou seu número estão sendo apagados.
Então pergunto: e campanha contra, pode? Por exemplo, se eu
quiser colocar um banner com Eu não voto em corruPTos, ou
quiser colocar Fora Marta ou Fora Gleisi, aí pode? E se eu
colocar Geraldo Alckmin Prefeito ou Beto Richa Prefeito no meu
sobrenome, aí pode? E se eu pedir votos para as pessoas nas
comunidades, mesmo sem ter nada no perfil, pode? Como é que
vão vigiar tudo isso? E qual é a diferença
entre isso e usar um botton no peito e sentar na mesa de um bar e
tentar convencer os amigos a votar no meu candidato? Ou vão
querer vigiar isso também? E se eu copiar e colar (com a
fonte) a notícia boa e/ou ruim sobre um candidato de um
jornal, revista ou portal de emissora de TV num tópico? Ou
copiar e colar o comentário do blog de um jornalista de
opinião, favorável a um candidato, numa comunidade?
Isso não é fazer campanha na internet também?
Ou até o jornalista no blog dele vai ser censurado? Por que
é que pode elogiar um candidato no blog dele não pode
copiar a opinião dele para cá ou espalhá-la no
Orkut? Como diferenciar o que é fazer campanha do que
não é? Ou só pode se manifestar
"politicamente" (?) na internet quem é jornalista ou ainda
não tem certeza de em quem vai votar?
Vou dar o
exemplo do meu caso. Não estou oficialmente na campanha de
qualquer político. Escrevo o que escrevo e falo o que falo
POR CONTA PRÓPRIA, de forma INDIVIDUAL. Nem filiada sou.
Não fui contratada, não recebo nada por isso e duvido
que os partidos e políticos tenham a menor
noção de que eu existo. Não tenho
vínculo com nenhum partido ou político, exceto os
estabelecidos pelas minhas convicções: sou movida POR
ELAS E NADA MAIS. Portanto, já fiz minhas escolhas e tenho
lado. E eu não posso manifestar isso no Orkut, usando um
banner na minha foto, criando e gerenciando ou ao menos
participando de uma comunidade para demonstrar minhas
posições e debater os assuntos desta
eleição? Não posso criar um perfil
exclusivamente para isso, com o intuito de proteger minha
intimidade e também meus amigos e familiares das
ameaças que já recebi no meu primeiro perfil?
Controles como
este que estão tentando impor, nem a própria ditadura
militar conseguiu. Para banir de vez a campanha política no
Orkut, seria necessário apagar todo o conteúdo da
categoria "Política", já que a subjetividade de
interpretação é vastíssima. Aí
nós ficaríamos em outros fóruns do Orkut,
debatendo as melhores maneiras de fazer uma bola de chiclete. Belo
país estaremos construindo! E os blogs de opinião,
então, terão que publicar desenhos animados e
poesias. Quem tem mais de 40 anos sentiu arrepiar os pêlos da
nuca, não é?
Antes de
terminar este post, é preciso esclarecer uma coisa: o Orkut
é um ambiente privado. Quem manda nele é o pessoal
que gerencia o Google/Orkut. Nós estamos lá por
comodato. Se, do dia para a noite, o próprio Orkut decidir
que não quer mais debates políticos (ou religiosos ou
sobre futebol, que são os três grupos que mais dor de
cabeça dão para eles – e nenhum lucro) no seu
espaço, estarão em pleno direito. Seria até
compreensível, já que dá para entender
perfeitamente que é pesado demais para o Google/Orkut,
juridicamente falando, carregar como missão social a
manutenção de assuntos tão
polêmicos.
Mas,
profissionais que são, duvido que os responsáveis
pelo Google/Orkut decidissem tal coisa sem um aviso prévio
razoável, como se fossem a Rainha de Copas de Alice no
País das Maravilhas gritando "cortem-lhe a cabeça!".
Ainda assim, não caberia chamar esta situação
de censura, e nós não poderíamos impor nossas
expressões políticas por lá, cabendo-nos
apenas lamentar, fazer back-ups e procurar outro espaço.
Acontece que
esta imposição vem de fora. E seria feita mesmo que
estivéssemos em outro site de relacionamentos. É
claro que o Orkut incomoda mais porque é mais
freqüentado, mas, tão logo outro ambiente se tornasse
vultoso, sofreria as mesmas sanções.
Eu realmente
não sei o que fundamenta esta resolução do
TSE. Num país cuja maior mazela é o desinteresse
político das pessoas e o afastamento dos cidadãos de
bem dos assuntos públicos, a internet se tornou o lugar
perfeito para estimular, seduzir e reaproximar as pessoas do tema,
dado seu caráter ao mesmo tempo democrático e
meritocrático, que dá abrigo a todos sem
discriminações de cor, classe, gênero,
religião ou idade, fazendo sempre destacar aquilo que
realmente tem melhor qualidade.
Estas
características tornam a internet atrativa a pessoas de todo
nível de qualificação, puxando os debates para
cima, uns aprendendo com os outros. E o Orkut, vastamente utilizado
pelos jovens, tornou-se um local de especial fertilidade para o
assunto. Será que, como disse meu amigo Thiago (ver posts
abaixo), temem o envolvimento do jovem ou de mais setores da
sociedade com a política? Temem o debate? Céus, mas
tudo do que mais precisamos é debate! Debate entre
candidatos, debate entre ideologias
político-parditárias, debate de idéias, enfim,
coisas que, pela legislação atual, já
não podemos ver mais na TV ou ouvir no rádio,
já que tudo virou panfletagem simplória.
Como é
que o eleitor vai escolher direito, se está tudo amarrado?
Se não é possível saber quem é melhor
ou pior, já que plastificaram todos do mesmo tamanho, com
este maldito isentismo que é parcial, pois quer que
desiguais pareçam iguais?
Entendo que os
únicos perfis ou textos que, sendo políticos ou
não, devem ser cerceados em qualquer parte, não
só no Orkut, são os que cometem ou fazem
incitação ao crime (como venda de drogas,
referências diretas a grupos armados e milícias etc.),
pedofilia e propaganda nazista. Defendo veementemente a liberdade
plena de expressão de opinião, sobretudo a
política. Sobretudo num país que padece da falta de
interesse da sociedade com o assunto. Sobretudo num país
onde os maus avançam porque os bons silenciam.
Não
silenciem. Não nos deixemos silenciar.